SOB OS JARDINS SUSPENSOS DA BABILÔNIA


MUDANÇA DE ENDEREÇO

Agradeço todos os internautas do Brasil e de várias partes do mundo que navegaram por este espaço. Ainda não sei se devo mantê-lo, sinto muitas dificuldades ao cuidar do layout, imagens etc. Mas, novas atualizações, por motivos técnicos indico o novo endereço que poderá ser ou não substituto deste blog. Para quem achar interessante a manutenção deste espaço, deixe seu recado. Manifeste-se! Enquanto isso, acessem:

A Canastra do Túlio

http://tulioh.blogspot.com

 



Escrito por Túlio Henrique às 17h23
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http://www2.dm.com.br/digital/index.php?edicao=7427

Confira matéria completa no jornal Diário da Manhã, sobre o autor no caderno DM Revista, na Pg. 03.



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Escrito por Túlio Henrique às 20h07
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A espera de um milagre: as cinco da madrugada repensando o presente através do passado

Tenho pensado muito no passado. É engraçado, sempre quando temos que tomar sérias decisões para o futuro, o passado regressa. E é tão massacrante quanto a realidade do presente.

 

Sinceramente, ter vinte e seis anos é um fardo pesado, principalmente, quando você levou mais de quinze anos de sua vida chorando escondido pelos cantos e desejando a morte. Estou numa fase estranha, muito estranha, na qual, ao invés de progredir, pareço estagnado e cansado, sem perspectiva nenhuma de futuro.

 

Sou bastante introspectivo e isso mata qualquer pessoa a minha volta, inclusive eu mesmo. Acabei de me graduar, saí de um trabalho onde lecionei por um ano; publiquei meu primeiro livro, mas ainda assim me sinto vazio e podre, embora esteja tecnicamente saudável.

 

Acho que o passado está vindo à tona por uma insistência pessoal de querer encontrar o passo falso de minhas decisões; mostrar as escolhas e o caminho que me trouxe até aqui. Estou desesperado e consumido por um vazio realista demais. Talvez eu estivesse esperando por muito tempo, uma alternativa melhor de vida que não seja a obviedade capital e social trazida pela modernidade. Espero tanto por uma alternativa, que estou submerso pelo cotidiano seco, concreto e volátil. E, embora, eu busque o fenecer da morte, tenho medo de atravessar a rua, deixar a porta aberta, ser assaltado, e, principalmente, medo de botijão de gás, panela de pressão e microondas.

 

Mas, quem não tem medo dessas coisas? Talvez, quem não espere um meio alternativo de vida, ou aqueles que não desejem de verdade a morte.

 

Existem milhares de vozes dentro de mim que conversam comigo, no entanto, ainda me sinto só, fora de encaixe e amedrontado. Com a sensação quase certa, de que continuo a espera de um trem, que nunca vai passar.

 



Escrito por Túlio Henrique às 11h15
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O Observador do Mundo Finito

O Observador do Mundo Finito

Livro: O Observador do Mundo Finito

Autor: Túlio Henrique Pereira

Editora: Scortecci

Gênero: Poesia Brasileira

Formato: 14 x 21 cm - 92 Páginas

ISBN: 978-85-366-0966-9

1ª Edição 2008

Valor: R$: 21,50; U$: 14,50, : 14,50

Sites: www.asabeca.com.br; www.livrariadalua.com.br ou www.letraseprosa.com.br

E-mail: tulioh@pop.com.br 



Escrito por Túlio Henrique às 14h22
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Agradecimentos

Olá pessoal!

 

De certo modo acredito que o ano de 2008 esteja começando agora. O Carnaval (Carnival) veio como uma luva para distanciar este momento, que é na verdade, o mesmo, linear e cíclico de todos os tempos.

 

Primeiro tivemos um prolongado Natal, Reveillon, recessos, greves, férias e Carnaval. Nossa! Ainda estamos no Carnaval. Embora, quase a maioria da população não faça idéia do que seja, estão quase todos, aproveitando os recessos e viajando por todo o Brasil, praias, clubes, países, estados... a lista não cessa.

 

No entanto, estou aqui para falar de tudo que aprendi. Agradecer aos 2.249 visitantes deste blog: inúmeros brasileiros no Brasil e outros anônimos em países como Portugal, Inglaterra, México, Espanha, Nova Zelândia, Roma, Romênia, Itália, Estados Unidos da América (USA), França, Bulgária, África, Holanda, Países Baixos... tantos visitantes, tantos leitores.

 

Realmente é inacreditável, pois a cada dia tenho a sensação de que a leitura e as artes vêm sendo marginalizadas e lavadas ao senso comum, assim como tem sido a mortalidade humana e inúmeras insatisfações populares e comuns a todos nós.

 

O ano passado foi bastante turbulento para mim que concluí a graduação em História. Realizei pesquisas sobre as identidades humanas e me deparei com novas incursões literárias e sociais. Prefaciei um livro de uma amiga em especial e viajei bastante.

 

Para este ano que se inicia pretendo compartilhar ainda mais. Foi publicado o meu primeiro livro autoral de poesias, “O Observador do Mundo Finito”, farei o meu primeiro sarau em uma livraria conceituada na Bahia, e estou trabalhando em mais três projetos voltados para a difusão do conhecimento na literatura e história.

 

Enfim, quero agradecer a todos os visitantes do blog e dizer que pretendo publicar muita coisa boa neste ano: mais músicas, poesias, crônicas, cartas, novos autores, de modo mais interativo, de modo que tenhamos o que comemorar quando completarmos nosso primeiro ano em julho de 2008. Para isso, peço a todos os visitantes para deixar comentários, mesmo que sucintos, quando nos visitar. Ou escrever para o e-mail: tulioh@pop.com.br. E que todos se divirtam muito sob os jardins suspensos da babilônia.

 

Abraços,

 

Túlio Henrique Pereira

 

Escrito por Túlio Henrique às 16h54
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(image) Ann Gover, (poem) Túlio Henrique Pereira

Escrito por Túlio Henrique às 15h41
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DEBUT ::Lançamento::

História Poética de Dias Ordinários

 

Capa: www.lunaticmindstudio.com

 

 

Nesse livro encontraremos um conjunto de poemas, à primeira vista, irregular. Sintamos, então, como Túlio Henrique, não o sol que aquece, mas o que queima a pele. E daí, usando um percurso raciocinado, identificaremos um fio regular que vai escorregando por todas as páginas. As imagens que saem de seus poemas vão construindo um filme que nos coloca como ator principal de cada poema, as velhas pequenas histórias que nos lançam ao passado de uma tia, ao nosso cabelo, àquele toque que nos virou no avesso, à revolução interna das feridas, ao grito de independência incessante e diminutamente inalcansável. De tanto pular fronteiras, na dispersão de espaços outros, o livro começa quando termina. Quando o fechamos, vemos de novo seu título, O Observador do mundo finito, referência não explicita em nenhum dos versos, mas neles presente pela ausência.

 

Ao estabelecer os limites do homem, o observador que é Túlio Henrique, olha também com nossos olhos o nascimento de idéias e lugares, que imperiosamente constroem um saber sobre essa vida tão simples da qual se adivinha um por vir impossível. Do interior desses poemas, ela, a vida, parece supor e instalar em cada momento uma atualidade, permitindo que se prescreva suas formas nos modos de vivê-la por meio de nossos corpos, nossos desejos e pela maneira de ser da linguagem. Esses imensos detalhes talvez nos façam pensar que é preciso viver o tempo de outra maneira.

 

Certamente, um trabalho que impõe o rasgo e a interrupção ao centro do nosso presente, colocando a questão tanto de nossa identidade quanto de nosso tempo. Uma cartografia de migalhas de vida e linguagem, que mapeiam a história dos instantes, que se acorrentam à fina cadeia dos pensamentos meio a nossa existência em forma de livro, O Observador do mundo finito, com nome de autor, Túlio Henrique Pereira, o qual permite generosamente falar nossas próprias vozes e recontar nossas histórias de poesias diárias.  

Nilton Milanez

 

 

This book is the first publication of the author having the cultural support of Casa Pai Joaquim de Aruanda. To buy now: www.scortecci.com.br

  

O livro é a primeira publicação do escritor e tem o apoio cultural da Casa Pai Joaquim de Aruanda 

 

 

 



Categoria: Poemas
Escrito por Túlio Henrique às 18h21
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Entre círculos

Imagem histórica dos primórdios do município de Itumbiara, quando a população atravessava de balsa o Rio Paranaíba 

Tenho tentado falar

mas não escuto

 

Pela cidade

entre edifícios e boulevards

sob passarelas

bares…

muitas luzes…

 

Tenho tentado falar

mas não escuto

 

Circunferências

avenidas retilíneas, íngremes

viadutos... desvelos...

um templo guardado

 

sem fim...

 

Tenho tentado falar

mas, nu, escuro 



Categoria: Poemas
Escrito por Túlio Henrique às 13h07
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Todo sorriso termina quando propõe o início

[meu aluno Elias Diniz, 10 anos, 3ª série - "Flautista" Cândido Portinari]

[...] Eu dizia apareça, mas quando apareceu não esperava, um dia me beijou e disse: não me esqueça! [...] Nada disso tem moral, nem tem lição... curto as coisas que acendem e apagam e se acendem novamente em vão [...].  Bagatelas, traduz a beleza e a súttil simbologia do invólucro sobrenatural, sobre o nosso corpo, existente no inconsciente humano.

 

Num mundo velho, cheio de novos e antigos sujeitos que se fazem vivos, apesar de sobreviventes e dispostos a sobrevida à espreita de cada um de nós na próxima esquina: nos dias de calor, a incerteza do amanhã e a esparança da noite, e apesar de jovens, responsáveis por nosso próprio destino. Conceitos tão medievais e tão póstumos desta modernidade tardia a que nos reserva um país orgânico e burocrático.

 

Não tenho habilidade nesta tarde para escrever qualquer mazela, nenhuma reclamação nem saudosismo. Sem lírica, somente frases, talvez sem orações, sem verbos e sujeitos. Cheias de predicados e pesadelos incessantes, pois que erga a chama e contentamento do mundo, que não vejo e nunca sinto, e nunca percebo em previsão.

 

[...] Aconteceu quando a gente não esperava... sem um sino pra tocar... diferentes das histórias, que os romances e a memória têm costume de contar [...]. Como no prelúdio o início ficou por conta do acaso, encerramos nossos medos, quando sintetizamos o encontro de almas a partir da extrema sorte do infinito, ou a despersão delas, na extrema sorte sistêmica do ocaso.

 



Categoria: Prosa Poética
Escrito por Túlio Henrique às 20h12
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O menininho na Rua das Flores no Bosque das Emas depois da curva inesperada do esquecimento

 

 

 

Havia um menininho ali, parado. Observando o dia como ninguém nunca o fizera. Parecia compreender ou ver o que ninguém tinha visto antes. Era um menininho de olhos grandes, lacrimejados e corpo franzino, e era belo por isso. Por ser ele, peito intumescido, boca ávida, lágrimas estancadas em olhos imensos e negros... imensos olhos com íris negras.

 

Ele não parava de olhar o vão do dia, apenas via o que ninguém via. Havia certeza em sua visão, verdade maior que o tempo que se exauria e ninguém mais. Ele era só um menino sem educação, mas único, cheio de mundo e de sutilezas na porta de uma casa de barro ornada de flores, flores lindas e vermelhas num contraste límpido com sua pele preta e tenaz. Sob o forte sol do meio dia e o pó das ruas descalças.

               

A janela de madeira corrompida, entreaberta e o portal denunciavam cupins deixando explícita a harmonia entre aquele menininho, sua mãe e seus amigos. Amigos noturnos que não presenciavam o dia. Mas lhe traziam sonoridades para o seu ninar cansadinho e fúlgido na noite que de vazia nada tinha.

 

O menininho escapuliu um riso tímido dos lábios ávidos. Trouxe alegria da alma que enxergava a vida no vão. Fantasiou o dia obstante como água de chuva em dia de verão. Fez chover nos olhos a incerteza do estado presente entre a esquina e sua casa à esquerda da Rua das Flores no Bosque das Emas depois da curva inesperada do esquecimento. Lá... naquele dia, no começo da tarde.



Escrito por Túlio Henrique às 12h07
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A liberdade de uma vida - PARTE I

 Lucien Freud - Naked girl asleep (1968)

 

Um pouco de contradição, vodca, introspecção, intelectualidade, romantismo e amizade. Coisas necessárias para o sentir da vida num final de semana. Ah, ouvir rock – odeio rock! -, mas Janis Joplin é um pouco de tudo isso que tenho vivido.

 

Uma sensação de liberdade, perdição e vontade de se encontrar mesmo estando perdido num decaedro. No meio do mato, num ambiente inusitado e pouco relevante se comparado a tudo já vivenciado por um mero adolescente recluso dos prazeres triviais. Cheio de vontades, dentre elas a de sentir o que um corpo comum possa sentir. Acho que os jovens do início do século 21, assim como os outros, sentiram a mesma coisa nesses dias, se não todos, pelo menos aqueles preocupados em dar significado a sua passagem por esse mundo louco e sarcástico... Não preciso trocar o telefone celular por um com câmara acoplado, nem com visor colorido, afinal, só preciso de um telefone. Preciso!? Do que preciso?

 

Revolucionar o dia como naquele tempo pelado e entorpecido se tomava as ruas, numa vanguarda intrínseca às razões dos sonhos. A utopia sem fim, rebelada com simultaneidade e nudez, entre correntes e opressões lacrimogêneas... pelas Sorbonnes e o desfrute da carne transformando o momento de uma humanidade frustrada em suas respostas.

 

Os grafites e a cola nos braços, dividindo espaço com lenços e reboques. Em transgressões fictícias, no entanto, mordazes, lhes afirmou jovens. Os tornaram capazes de sentir, aquilo que hoje já nem sinto quando teatro minha toxidade numa rua urbana sem muro vivo, inscritos de artes como o nascimento do homem ao ser fecundado no óvulo. Quando Janis Joplin surgiu? Por que a música existe? Qual o propósito dessa mulher, que indiferente de muitos roqueiros de seu tempo até o nosso, sofrem num mundo insólito e superdosado, ou se marginalizam pela peculiaridade de seu psiquismo? O que seria a marginalização intelectual?

 



Categoria: Prosa Poética
Escrito por Túlio Henrique às 03h16
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A liberdade de uma vida - PARTE II

 

Dopar-se até o cérebro escarnecer a alma? Ou ter no gozo o ópio da pureza? Eu quero ceifar esses medos e gritar que o intelecto me cega no mundo que existo sem existir. Virar do avesso com meu sexo barato, comprado no canal aberto da madrugada vazia. Sem entender que a transgressão selvagem e a criação deusificada caminham juntas na mesma calçada restada às prostituas sem nenhum intelecto continental.

 

Não sei se preciso de álcool para entrar em sintonia com aquilo que realmente seja. Sei que a sensação de me sentir flutuar num mundo concreto e limitado faz bem por alguns segundos. Quando é impossível ser um cara de 23 anos e não se lembrar das vontades escritas por Maria Mariana antes que tudo se acabe. O sentido de tudo talvez não exista: a nostalgia, alegria, paixão. Vontades talvez não existam. O mundo talvez exista pelos simples fatos... algumas lágrimas, risos e uma história para contar sobre eles. A teleologia desses termos deixo para quem queira.

 

A idéia de padecer sempre me veio como uma solução difusa, embora, pertinente para o acometimento da tristeza e a peculiar melancolia facial expressada rotineiramente. O que contradiz o fato de eu ser o oposto daquilo que pensava ser, e que hoje de manhã acreditei ser e a tarde já não era mais. Mas agora a noite já nem existo mais. O que me faz ser o paradoxo contínuo de tudo que acredito ser diariamente, numa inflexão como medida para todas as coisas, visualização errônea e desnecessária das coisas. Imprudência nas atitudes e desmantelo daquilo que deveria ser tratado com esmero e delicadeza.

 

A morte me parece uma pluma suspensa no ar, pairando sobre as folhas da figueira, abacateiros, hortênsias, jasmineiros... pouso forçado na terra. Pluma de algodão disforme; penugem de ave disforme; dente-de-leão disforme como o vento leve como a vida nesses dias inteiros de lucidez. Embora, tanto queira abrir a porta e as janelas para deixar a esperança entrar na casa que abrigo no espetáculo trazido pelo vento da tarde. O corpo como uma semente flutuando alto, alto e perdido. No refluxo dum sortimento interiorizando-me.



Categoria: Prosa Poética
Escrito por Túlio Henrique às 03h13
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DE REPENTE

 

Há muito tempo atrás numa pacata e pequena cidade do interior do Sertão Nordestino morava um amor de garotinha, negrinha de pele sedosa e amorosa como ninguém. Ela vivia encantando o coração das pessoas: Ynaê, filha caçula, irmã de dona Gorgulha que vivia a cantarolar – nesse tempo os pais tinham filhos quando os outros já eram adultos, hoje isso pouco acontece.

 

Como tudo na vida muda; ao som das músicas e muito bem querida, Ynaê cresceu e mudou. Conheceu Miltinho, seu fiel amigo, mas consigo esmoreceu. Não que Miltinho fosse triste, mas sim docinhos, carinhos e proteção deixaram de fazer parte de seu coração. Agora seus desejos cresciam e se tornavam reais, e no prelúdio em comemoração as festividades natalinas “Asa Branca”, além de ser cantada para ela, significava paixão e um desejo enlouquecedor queimando o peito sem arbitrariedades para o resigno. Queria o mundo solto para amar um menino, enquanto a ela amasse por esse mundão sem cerca todo de Deus e dos dois.

 

Noutro dia, no caminho até uma matinê na escola Ynaê conheceu Godofredo, menino que para ela – novo na cidade – era perfeito, mas tinha um grande defeito, que era ser namorador. Subitamente se tornaram íntimos e Miltinho não existia mais, pelo menos para Ynaê. A cada dia eles se conheciam, trocavam segredos e se beijaram pela primeira vez. Estavam sempre juntinhos conversando bem baixo no banco da praça.

 

Os vizinhos e amigos se chatearam, cruzaram os braços e curvaram o pescoço. Não mais careciam de oferecer-lhe carinho nem prosa, nem versos na escola, nem coca-cola no bar do Bartolomeu, pois Ynaê, apesar de apaixonada parecia menina levada que só queria falar de amor e do prazer de conviver com o baeco. E nada do que os vizinhos dissessem ou fizessem a menina se sentia abalada, e estava diuturnamente grudada na barra da calça do torengo. Cabra da peste ciumento, que não deixava livre o passeio do lado direito para nenhum marmanjo tocar o fio de lã da saia tricotada por sua mãe que presenteara Ynaê.

 

Certo dia, solteirona e despeitada, Gorgulha pôs-se na janela a fofocar com Vivinha, a tia e vizinha despertando inversores cheios de pudores paralelos as leis do viver: “Vai embirar? É lasca ou há de sofrer? É preta com toda glória do brau essa Ynaê. Não pára de abufelar mãinha, vai abufelar a tia e o arraial sofrê. Pensa ser casa de noca, vive pra cima e pra baixo com esse ababacado, pra modo de quê?”, outra vizinha gritava: “Bamburim pebado quem jogá faz o laço, deixa o barco corrê!”

 

Gorgulha se apossou dos falatórios, saiu apressada até a sacada e em sua mãe foi despejar. Pobre Ynaê enamorada, ao que chegou levou palmadas e no quarto ficou a chorar, olhando as paredes cercando a sala, os três reis magos abençoando a casa, decidiu não mais ficar. Logo fugiu pela janela deixando uma carta no criado da sala onde havia um abajur.

 

No campo encontrou um cavalo, montou no coitado e Godofredo procurou. Ofegante e dissimulada Ynaê o beijou, abraçando-o e ao apertá-lo lhe contou: “Não podemos nos ver mais meu alvorecer. Quero muito querer, mas não poderemos mais!”. Seus olhinhos brilhavam, sua respiração acelerada, a boca suava como uma garrafa d’água petrificada ao degelo. “Quero amar você Ynaê – dizia Godofredo, cheio de desejo e de bem-querer – não importa o que digam, não pense, só sinta o que queremos viver!”.

 

E no crepúsculo do nascimento de Cristo, Ynaê questionou o viver, já que o sentido se perdera só de imaginar a distância daquele que lhe trouxera um sentido e o enternecer. Os amantes se abraçaram e assim ficaram olhando um para o outro, observando a noite passar. E com repente o amanhecer não tardou, o dia logo chegou e destemida Ynaê foi à lagoa se encontrar.

 



Categoria: Contos
Escrito por Túlio Henrique às 22h42
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 MARIA

A lua banha Maria Silva, não sabe ela, nem quer saber se alguém um dia vai despertar um sentimento caro por si. Ou esteja o corpo necessitado do prazer experimentando o corpo de alguém que acredita estar no gozo a razão da sua existência. Sua libido deseja serenidade que se faça sem esforço, do contrário se sacia o desejo da vontade de encontrar resposta no outro, a morbidus avassala lhe trazendo o retornável desejo de saciá-lo novamente. Sendo assim, é sucessível ou nada além de uma experimentação continuada. Então Maria Silva, que mais quer além de suas palavras é encontrar contentamento dentro e não prelúdio que não se acaba.

 

Traz a música que representa seu destino e passado “Como Nossos Pais” um dia foram, interpretados ícones ou massas. Limitados de vertentes, que agora traga explicitamente pelas ruas do Rio de Janeiro de Jobim e Vinícius, por jovens meninos não sem juízo, mas contaminados pela liberdade que os aprisiona no olhar fatídico de Maria, que se pergunta diariamente o porquê, Maria? Por quê, Maria?

 

E sofrer a experimentação do corpo livre da conseqüência, ou com essa (conseqüência e/ou experimentação) implícita, guardada em qualquer lugar que não seja a mesma caixa onde está a frustração vivenciada por milhares, entre eles sua mãe, Maria?

 

É, Maria! Você caminha o olhar nessa lua que te banha, pensando um dia viver aquilo articulado por sua idéia, mas aí, será a prática a sua ideológica experiência? Talvez sim, se o tempo a congelar para que desfrute no seu tempo o que o seu corpo um dia permitira. E talvez não prevaleça, já que a oxidação física não tarda, nem a custa de medicina, tecnologia ou banho de cheiro nas minas do rejuvenescimento que no homem habita.

 

Só tenha momentos Maria. Só tenha momentos porque a vida assim se concretiza. E siga o vento, porque o Norte, o Sul, o Sudoeste e o Oeste trazem as boas novas para o seu complexo contentamento, que só trará o contento que vigia, quando você se permitir a qualquer prelúdio infundado, Maria.

 



Categoria: Prosa Poética
Escrito por Túlio Henrique às 10h09
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A aurora dos meus sonhos

 

Era um dia qualquer de inverno rígido e chuvoso, um céu bastante nublado e cheio de silêncio. Os dias em Itaporanga eram sempre silenciosos e densos, muito densos. Casas modestas, jardins pelos quintais, muros baixos e portões de madeira.

 

O dia caminhava lento e, ao final das cinco, o sol sempre estatelava seu reluzente amarelo em despedida. Ruas calmas, folhas passeando pela grama entre os canteiros, nem o som de pássaros se ouvia.

 

Logo as seis, todas as donas de casa corriam para seguir o capítulo da novela, enquanto o feijão cozia no fogo. Dava para ouvir o chiar das panelas e o plim plim da TV anunciando a hora. Nesse tempo, o Joaquim corria para a praça com o violão nos braços, porque ensaiar em casa naquele instante era impossível. Mas a friagem constante não pausava e sua ansiedade em tocar lhe corroia as têmporas.

 

Não podia imaginar-se distante, mesmo que unido ao violão, aquilo que mais amava, a música e só depois... não conseguia enxergar o que viria depois da música que lhe era tão sutil proporcionando o sentir da alma e cada membro de seu corpo em sintonia, mesmo que por instantes.

 

Pôs-se a refletir com os cotovelos na janela e os joelhos assegurados na cama encostada na parede. Pensou que nada nesse mundo pudesse oferecer tanta segurança e certeza de viver, como se pudesse saber todas as respostas, embora sem palavras. Energia contaminando-lhe o corpinho franzino e espichado.

 

Os olhinhos fundos de tanto acreditar no infinito podiam lhe trazer a dor e o sentimento mais humilde, mas preferia amar a música, o vento, o crepúsculo das seis e o mar, a chuva, borboletas, pássaros, árvores, nuvens, estrelas e o amar. Simples assim.

 



Categoria: Contos
Escrito por Túlio Henrique às 02h19
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